O PERIGO DO ASSOREAMENTO

Represa de Rio Preto sofre com 50 mil metros cúbicos de excesso de areia e de terra

Cerca de 50 mil metros cúbicos de excesso de areia e terra carregados pelas águas da chuva e afluentes estão depositados na Represa, um problema ambiental que afeta a população, a fauna e a flora

por Rodrigo Lima
Publicado em 25/12/2021 às 22:48Atualizado em 26/12/2021 às 00:00
Ilhas no meio da Represa se transformam em local de abrigos para animais (Guilherme Baffi 24/12/2021)
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Ilhas no meio da Represa se transformam em local de abrigos para animais (Guilherme Baffi 24/12/2021)
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Cerca de 50 mil metros cúbicos de excesso de areia e terra carregados pelas águas da chuva e afluentes estão depositados na Represa Municipal, um dos principais cartões postais de Rio Preto. O assoreamento é tratado por professores da Unesp/Ibilce no livro “Ecossistema da Represa Municipal”, lançado no dia 20 deste mês, como um problema ambiental que afeta a população e não apenas a fauna e a flora.

Durante a estiagem, é possível ver em alguns pontos o surgimento de pequenas ilhas de terra, ocupadas por capivaras e aves que vivem no local. Para se ter uma dimensão do problema do excesso de areia, o Serviço Municipal Autônomo de Água e Esgoto (Semae) estima que seriam necessárias aproximadamente quatro mil viagens para transportar os resíduos em caminhões. Os sedimentos são formados por areia, silte (fragmento de mineral ou rocha menor do que areia fina), argila e resíduos sólidos.

No livro, organizado pela professora de Ecologia de Comunidades, Biologia da Conservação, Parasitologia Geral e Humana, Lilian Casatti, é apontado que o assoreamento impacta diretamente nos custos do tratamento da água e tem como reflexo o aumento da tarifa. “Quando as características do meio aquático mudam e há poucos peixes para pesca (e de baixa qualidade), quando é necessário desassorear a Represa (e o custo é pago pelo contribuinte) e até mesmo quando a Represa perde seu apreço estético”, consta em trecho da publicação, que tem prefácio da secretária de Meio Ambiente, Kátia Penteado.

O Semae rebate e afirma que o assoreamento da Represa, atualmente, “não representa uma ameaça para o abastecimento do município”. No final de 2019, a entidade contratou uma empresa de engenharia especializada em projetos de dragagem e desassoreamento. Após as sondagens e outros levantamentos constatou que o assoreamento ocorreu em alguns pontos dos lagos 1 e 2, afirmou o Semae em nota.

O superintendente do Semae, Nicanor Batista Júnior, disse que a autarquia e a Secretaria Municipal do Meio Ambiente têm entre as suas prioridades a manutenção da Represa Municipal. “Zelamos pela fauna e flora do Parque da Represa, bem como pela qualidade da água. Fazemos a limpeza e a remoção de lixo e vegetação constantemente. O desassoreamento já está previsto. Estamos dependendo de licenças ambientais e da definição exata daquilo que poderá ser removido. A nossa preocupação é com o meio ambiente e com os padrões de qualidade da água que é oferecida à população”, disse.

De acordo com o Semae, os principais pontos de acúmulo de resíduos ficam em trecho da avenida Antônio Tavares Pereira Lima, no final da avenida Murchid Homsi, e próximo à sede da Guarda Municipal. “Existem as épocas de seca e de cheia. O nível é variável nesses períodos. Nos períodos mais críticos de estiagem os bancos de areia ficam expostos”, consta em nota.

Segundo levantamentos realizados pela autarquia, o rio Preto possui 158 nascentes. “Das nascentes que ficam acima da Estação de Tratamento de Água, a ETA Palácio das Águas, e que são responsáveis por abastecer 20% da cidade, foram identificadas 62”, afirmou em nota.

Autarquia tem projeto

Em parceria com a pasta de Meio Ambiente, o Semae afirma que desenvolve, desde 2016, o projeto “Plantando Água”, que tem como objetivo restaurar e proteger as matas ciliares e, assim, aumentar a vazão de afluentes do rio Preto, onde ocorre parte da captação de água de abastecimento da cidade.

A autarquia afirma que promoveu plantios de mudas nativas em Áreas de Preservação Permanentes (APPs). Uma delas ocorreu na região do córrego São Pedro, na área da ETE. O Semae afirma que o local está recuperado, com o plantio de 13 mil mudas. “Em 2021 foi dada a continuidade na recuperação total da APP do rio Preto. No total, foram plantadas no local 25 mil mudas”, afirmou em nota. De acordo com o Semae, está em andamento o projeto de plantio de 32 mil mudas de árvores nativas nas margens do Córrego São Pedro e do rio Preto, que passam dentro da propriedade Estância Marialva, localizada ao lado da ETE Rio Preto em uma área de 196 mil metros quadrados.

Neste ano, a autarquia informou ainda que assinou contrato com o Fundo Estadual de Recursos Hídricos (Fehidro) para a “Restauração de Áreas de Preservação Permanente da Estação Ecológica do Noroeste Paulista e Entorno”, com o objetivo de plantar 85 mil mudas de espécies nativas. “Já foi elaborado o plano de prevenção contra incêndios (previsto no contrato) e a licitação de plantio está aberta”, consta na nota.

A restauração da área da Estação Ecológica, atingida por um incêndio em setembro do ano passado, foi indicada pelo Comitê da Bacia Hidrográfica dos Rios Turvo e Grande. A meta é garantir áreas de preservação dos recursos hídricos na região.

Livro contabiliza 223 espécies de animais

Lilian Casatti, a secretária de Meio Ambiente, Kátia Penteado, e Maria Stela Castilho Noll durante o lançamento do livro (Divulgação/Prefeitura)
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Lilian Casatti, a secretária de Meio Ambiente, Kátia Penteado, e Maria Stela Castilho Noll durante o lançamento do livro (Divulgação/Prefeitura)

O livro “Ecossistema da Represa Municipal de São José do Rio Preto” aponta que foram contabilizados 223 espécies de zooplâncton - tipos de crustáceos -, peixes e aves no principal cartão postal do município. Em uma próxima etapa, os professores da Unesp/Ibilce afirmaram que serão incluídos no livro os mamíferos que vivem no espaço. “Podemos dizer que a Represa Municipal, apesar de inserida em uma paisagem tão modificada, ainda é um refúgio representativo da diversidade regional para organismos aquáticos e aves”, consta em trecho da publicação.

O livro aponta ainda que, em 15 anos, houve a diminuição da quantidade e no número de espécies de peixes, mas houve aumento das espécies não nativas. A secretária de Meio Ambiente, Kátia Penteado, critica o assoreamento. “O assoreamento, além de ser prejudicial a todas formas de vida aquática, conforme relatado acima, também diminui muito a capacidade de armazenamento de água para abastecimento da população”, afirmou em nota.

Ela, no entanto, defendeu as grandes ilhas que, com o passar dos anos, a fauna nativa identificou como um ponto de abrigo e para criação de ninhos de aves. “Sendo hoje um local onde algumas espécies de aves residem e se reproduzem, e hoje é um local que deve ser protegido por esses fatores”, disse Kátia.

Levantamento

De acordo com a secretária, está em fase de finalização a criação de um aplicativo que será utilizado no levantamento das nascentes do município. “Este levantamento deve ser iniciado em janeiro. Na primeira etapa serão cadastradas as nascentes a montante das Represas e na segunda etapa as nascentes a jusante”. (RL)